Nesta última quinta-feira (30), a Polícia Civil (PCES), por meio da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, anunciou a conclusão das investigações de seis homicídios ocorridos em 2024 no bairro Jardim Carapina, na Serra. A DHPP Serra identificou 16 suspeitos: 10 foram presos durante a operação, 3 estão foragidos no estado do Rio de Janeiro, 2 morreram e 1 adolescente.
De acordo com o delegado Rodrigo Sandi Mori, chefe da DHPP Serra, cinco dos crimes foram motivados por disputas ligadas ao tráfico de drogas e um por motivo fútil. Ele destacou ainda que Jardim Carapina está entre os bairros mais violentos da Serra e do Espírito Santo, somando 321 homicídios desde 2001.
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Guerra do tráfico
Segundo o delegado, os crimes investigados envolvem duas facções que disputam o controle do tráfico local. “Três homicídios foram atribuídos à gangue do Campo, liderada por Lázaro Silva Muniz, conhecido como Popeye, de 28 anos, e dois à gangue do BDF, comandada por Matheus Farias Pacheco Souza, vulgo Boca Preta, de 26 anos, que está foragido no estado do Rio de Janeiro”, afirmou.

7 de abril – Emboscada e execução motivadas por vingança
O primeiro homicídio de 2024 em Jardim Carapina teve como vítima Pablo Diógenes Sarmento da Silva dos Santos, de 24 anos. Ele foi atraído para uma emboscada planejada por Agatha Joyce da Silva Nascimento, de 20 anos, que mantinha um relacionamento extraconjugal com a vítima, e pelos traficantes Felipe Barreto de Assis, conhecido como “Barretinho“, de 27 anos, e Wiglisson Lima Cardoso, de 23 anos, vulgo “WG“.

Ainda de acordo com o delegado Rodrigo Sandi Mori, o crime foi motivado por vingança e disputas entre facções. “Agatha chamou Pablo até o local e, assim que ele chegou, Felipe e Wiglisson efetuaram os disparos. A execução foi rápida e não deu chance de defesa à vítima”, relatou.



Felipe ofereceu R$ 5 mil a Agatha para atrair Pablo até o local da execução. Os dois foram presos durante as investigações. Felipe foi detido em Vitória, em operação da DHPP Serra. Agatha também foi presa e confessou o crime, mas responde em liberdade por estar grávida no momento da prisão e ter filhos pequenos.
O delegado destacou que o caso evidencia como relações pessoais podem ser usadas por facções criminosas. Com a conclusão do inquérito, Felipe e Agatha foram indiciados por homicídio triplamente qualificado – por motivo torpe, perigo comum e impossibilidade de defesa da vítima.
Wiglisson foi assassinado foi mês de maio, em Jardim Carapina, em um crime atribuído ao próprio grupo do Campo, sob suspeita de traição.
27 de abril – Assassinato brutal
O segundo caso ocorreu no dia 27 de abril e teve como vítima Luís Henrique Batista da Silva, de 22 anos. Morador de Cariacica, ele havia ido ao bairro Jardim Carapina para participar da festa de aniversário da avó quando acabou sendo brutalmente assassinado.

De acordo com as investigações, Luís Henrique chegava ao bairro pela pista nova, atrás do Sindipol, quando foi surpreendido por Matheus Farias Pacheco Souza, conhecido como “Boca Preta”, por Everton Júnior Pena Nunes, o “Goe”, e por um adolescente que dava apoio ao grupo. A vítima ainda tentou escapar pelo mangue, mas acabou alcançada, foi agredida com pedaços de madeira e, em seguida, executada com vários disparos de arma de fogo. Luís Henrique morreu no local.

O crime foi motivado por uma dívida relacionada ao tráfico de drogas. De acordo com o delegado Rodrigo Sandi Mori, a motivação do crime foi uma dívida ligada ao tráfico de drogas, mas, neste caso, quem devia era o próprio “Boca Preta” para a vítima. Para não pagar o valor que devia a Luís Henrique, “Boca Preta” teria se aliado a Goe e ao adolescente, e os três participaram da execução.

Matheus e Everton foram indiciados por homicídio qualificado – por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima – e também por corrupção de menor. O adolescente foi ouvido pela DHPP Serra, confessou participação no crime e aguarda decisão da Justiça sobre a internação.
A DHPP Serra prendeu Everton, conhecido como “Goy”, apontado como integrante do grupo que atuava na região. Já Mateus, o “Boca Preta”, que, segundo as investigações, comandava a boca de fundo do BDF, segue foragido no estado do Rio de Janeiro. Um adolescente apreendido no mesmo caso aguarda decisão da Justiça sobre a internação.
29 de maio – Executado por suposta traição ao PCV
Wiglisson, envolvido no assassinato de Pablo, foi morto no dia 29 de maio. As investigações apontam Lázaro como mandante e Daniel Bredoff Firmino, de 27 anos, conhecido como “Ceará”, como executor. Também participaram do crime Marlon Nascimento da Conceição, conhecido como “Marlin”; Marcos Antônio Rosa dos Santos, de 32 anos, vulgo “MK”; e João Gabriel Costa Vieira, de 25 anos, vulgo “GB“.



A motivação do homicídio de Wiglisson seria uma suposta traição à facção Primeiro Comando de Vitória (PCV). Ele teria colaborado com criminosos rivais durante um ataque em Vila Velha.
De acordo com a investigação, poucas horas antes do homicídio, Marcos, vulgo “MK”, teria retirado a arma de fogo de Wiglisson e as drogas que estavam com ele. Já na madrugada do dia 29 de maio, Daniel e João Gabriel foram até a residência da vítima. “Daniel e João Gabriel arrombaram a casa da vítima se passando por policiais. Quando ele se rendeu, Daniel efetuou sete disparos, matando-o na frente da esposa”, relatou o delegado Rodrigo Sandi Mori.


Lázaro Silva Muniz, apontado como mandante, e Marlon Nascimento da Conceição, intermediário do crime, foram presos durante operações da DHPP. Daniel Bredoff Firmino (vulgo Ceará), executor dos disparos, e João Gabriel Costa Vieira (vulgo GB), responsável por dar cobertura, também foram detidos.
Todos foram autuados por homicídio qualificado pelo motivo torpe, pela impossibilidade de defesa da vítima e pelo emprego de arma de fogo de uso restrito — três qualificadoras no mesmo crime — e também pelo crime de associação criminosa. Marcos Antônio Rosa dos Santos (vulgo MK) segue foragido no estado do Rio de Janeiro.
15 de novembro – Invasão e assassinato
No dia 15 de novembro, João Paulo Medeia Damacena foi assassinado dentro de casa em Jardim Carapina. De acordo com as investigações, o crime foi cometido por Júlio César Lima Anatório Vieira Cabidelle, conhecido como “Menor Capeta”, a mando de Luiz Gustavo de Souza Sobrinho, vulgo “Gustavinho”.

Segundo as investigações, a aponta que a vítima mantinha um relacionamento com uma jovem que anteriormente teria se envolvido com o primo dele, identificado como Gustavinho, o que teria causado ciúmes. Além disso, a vítima também possuía uma dívida ligada ao tráfico de drogas com o próprio Gustavinho, fator que, segundo as investigações, teria contribuído para a decisão de executá-la.

Capeta”, 21 anos. (Divulgação: PCES-DHPP Serra)
Ainda conforme as investigações, Luiz Gustavo forneceu a arma utilizada no crime e determinou que Menor Capeta invadisse a residência de João Paulo durante a madrugada. A vítima foi surpreendida enquanto dormia no sofá da sala e não teve chance de reagir. Júlio efetuou os disparos e fugiu em seguida.

Luiz Gustavo foi indiciado por homicídio qualificado e segue preso preventivamente. Já Júlio César, vulgo “Menor Capeta”, apontado como autor dos disparos, morreu em confronto com a Polícia Militar no dia 11 de maio deste no bairro Vila Garrido em Vila Velha.
19 de novembro – assassinado na frente da mãe
O homicídio ocorrido em 19 de novembro de 2024 teve como vítima Raulino Souza Dias, morto dentro de casa no bairro Jardim Carapina. A DHPP Serra identificou três envolvidos: Lázaro Silva Muniz, de 28 anos, conhecido como Popeye (mandante do crime); Talysson Filipe Lima da Silva, de 20 anos, vulgo Talyssinho (executor); e Adriano Contes Silva, de 26 anos, vulgo Gugu (cúmplice e responsável por dar cobertura).

De acordo com as investigações, Raulino foi assassinado por ordem de Lázaro, após ser flagrado repassando informações a um traficante rival. Quinze dias antes do crime, no dia 5 de novembro, mais de dez integrantes do grupo de Lázaro invadiram a residência da vítima e tomaram seu celular. A intenção era executá-lo naquele momento, mas o plano foi abortado quando uma viatura da Polícia Militar passou nas proximidades.

No dia 19, os criminosos voltaram ao local para concluir o crime. Sob as ordens de Lázaro, Talysson e Adriano invadiram novamente a casa durante a madrugada, retiraram Raulino do quarto — enquanto ele dormia — e o levaram até o quintal. Lá, Talysson efetuou três disparos fatais, matando a vítima na frente da mãe, que presenciou toda a cena e chegou a implorar pela vida do filho.

As investigações confirmaram que os criminosos usaram armas de fogo de uso restrito e que, durante a primeira invasão, também cometeram roubo, levando o celular da vítima — aparelho que serviu para confirmar a vítima mantinha contato com rival de Lázaro.
Lázaro Silva Muniz, Talysson Filipe Lima da Silva e Adriano Contes Silva foram indiciados por homicídio qualificado, com agravantes de motivo torpe, impossibilidade de defesa da vítima, uso de arma de fogo de uso restrito, associação ao tráfico e roubo majorado.
20 de novembro – discussão em bar
O último homicídio do ano de 2024 investigado pela DHPP Serra ocorreu em 20 de novembro e teve como vítima Robson de Oliveira Gomes, de 32 anos. Ele foi assassinado por Uadson Gomes Santos, de 58 anos conhecido como “Tim“, após uma discussão banal em um bar no bairro Jardim Carapina.

Segundo as investigações, Robson era uma pessoa conhecida na vizinhança por seu jeito brincalhão e por fazer piadas com frequência. Na noite do crime, ele estava em um bar do bairro quando fez comentários e brincadeiras que desagradaram Uadson, que reagiu com irritação. Testemunhas relataram que os dois chegaram a discutir rapidamente, mas o autor deixou o local e prometeu “voltar para resolver”.

Minutos depois, Uadson retornou armado com um revólver calibre .38, foi até a porta da casa de Robson e efetuou vários disparos à queima-roupa, atingindo a vítima na frente da residência. O crime foi presenciado por moradores da região, que ficaram chocados com a brutalidade e o motivo fútil que levou ao assassinato.
De acordo com o delegado Rodrigo Sandi Mori, o homicídio não teve relação com o tráfico de drogas, mas demonstrou o nível de violência cotidiana presente no bairro. “Foi um crime motivado por um desentendimento banal. A vítima era conhecida por brincar com todos e, infelizmente, isso despertou a fúria de um indivíduo que já circulava armado e vinha intimidando moradores”, destacou.
Após o crime, a equipe da DHPP Serra iniciou as buscas e localizou Uadson poucos dias depois, ainda no mesmo bairro. Ele foi preso em flagrante com o revólver calibre .38 usado na execução. “A prisão dele foi importante porque evitou novos homicídios, já que ele andava armado pelas ruas e ameaçava moradores constantemente”, concluiu o delegado.
Uadson foi autuado por homicídio qualificado pelo motivo fútil e pela impossibilidade de defesa da vítima e, além disso, foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, um revólver calibre 38, sendo encaminhado ao sistema prisional, onde permanece à disposição da Justiça.
Lazaró, o Popeye
De acordo com delegado Sandi Mori, a prisão de Lázaro é considerada de suma importância porque ele era apontado como um dos principais articuladores do tráfico no bairro Jardim Carapina, comandando diretamente as bocas de fumo do Campo, Ponto Final, Chatuba e Morro da Brahma.
Segundo o delegado, Lázaro não só determinava a morte de desafetos como também ameaçava moradores que não aceitavam as regras impostas por ele, chegando a orientar subordinados sobre como executar vítimas — inclusive usando capuz — e a dizer que “cortaria o pescoço” de uma mulher que se opunha às ordens do grupo.
As investigações também identificaram, por meio da análise de celulares, que ele mantinha um arsenal de armas de fogo e usava ameaças para tomar bens de moradores, como casas e veículos.

Distribuição das biqueiras no bairro Jardim Carapina
Ainda conforme a apuração, no Jardim Carapina atuam várias frentes ligadas ao tráfico — Campo, Ponto Final, Chatuba, gangue do Biel, Morro da Brahma, BDF e Contorno — e Lázaro controlava quatro delas.
Já o BDF e a Pracinha eram coordenados por Mateus, o “Boca Preta”, que está foragido no Rio de Janeiro. Dos seis homicídios investigados nessa etapa, cinco têm relação direta com o tráfico: três atribuídos à gangue do Campo e dois à gangue do BDF. Em dois desses crimes, as mortes de Whindson e de Raulim, Lázaro aparece como mandante.
Redução da violência
O delegado ainda destacou que o trabalho da DHPP reduziu significativamente os índices de homicídios em Jardim Carapina. Entre novembro de 2024 e agosto de 2025, o bairro ficou nove meses sem registrar assassinatos.
Desde 2018, todos os homicídios ocorridos na região foram elucidados pela equipe. “O empenho dos investigadores e as prisões realizadas nos últimos anos têm garantido períodos prolongados de paz na comunidade”, afirmou o delegado.
Mais detalhes sobre a operação e sobre a atuação das facções no bairro podem ser conferidos no vídeo completo da coletiva de imprensa, que traz as falas do delegado Rodrigo Sandi Mori.
Vídeo Youtube SN:
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