Os bastidores da Câmara Municipal da Serra (CMS) estão fervendo devido à disputa interna pelo controle da Mesa Diretora, que transformou o Legislativo serrano em um roteiro digno de série da Netflix, recheado de tretas políticas, com articulações, recuos de última hora, mudança de lados, vereadores tentando sobreviver no jogo de poder e alianças improváveis.
Na sessão ordinária da última segunda-feira (09), um grupo de vereadores tentou abrir um processo para destituir a atual Mesa Diretora, atualmente presidida por William Miranda (União Brasil). A proposta previa afastar a direção da Casa e convocar uma nova eleição interna para um mandato tampão até o final de 2026, quando será realizada a eleição regular da Mesa para o biênio 2027-2028.
Leia Mais ∎
A articulação foi capitaneada pelo vereador Rodrigo Caldeira (Republicanos), ex-presidente do Legislativo. O primeiro movimento foi a aprovação de um regime de urgência especial para leitura e votação da representação que pedia a destituição da Mesa.
O pedido de urgência passou com facilidade: 18 votos favoráveis e apenas 3 contrários.

O passo seguinte seria votar o mérito da representação em uma sessão posterior, dando tempo para ampliar a articulação política. Mas o plano não funcionou.
Contra-ataque da Mesa muda o rumo da votação
Após movimentação da atual Mesa Diretora e de vereadores aliados, o plenário decidiu colocar a proposta em votação imediatamente, ainda na mesma sessão. A leitura era: o grupo favorável à destituição ainda não tinha os votos necessários, e votar naquele momento poderia enterrar a primeira investida do movimento.
Foi exatamente o que aconteceu. Depois de um breve intervalo de cerca de cinco minutos, o requerimento foi colocado em votação e acabou rejeitado. O resultado final foi de 9 votos favoráveis e 13 votos contrários.

Além disso, dois vereadores que haviam assinado o documento recuaram e votaram contra a proposta: Henrique Lima e Jefinho do Balneário, ambos do Podemos. Com isso, o movimento para derrubar a Mesa Diretora acabou frustrado ainda na mesma sessão.
O episódio ocorre após um momento de forte instabilidade política na Câmara da Serra. Em setembro de 2025, a Justiça determinou o afastamento de quatro vereadores, três deles ocupantes da atual mesa diretora, incluindo o então presidente Saulinho da Academia (PDT), em investigação relacionada a um suposto esquema de corrupção passiva. Desde então, o ambiente interno da Casa ficou ainda mais tenso.
Tabuleiro do jogo político virou
Mas a história não parou na sessão de segunda-feira. A Coluna Chico Prego apurou que, desde então, o cenário mudou drasticamente. Houve uma verdadeira debandada no grupo de William Miranda. Segundo vereadores do grupo liderado por Rodrigo Caldeira, ouvidos pela coluna, o movimento tinha inicialmente apoio de aproximadamente oito vereadores, cresceu rapidamente e agora conta com 16.
Do outro lado, o grupo ligado ao atual presidente William Miranda encolheu drasticamente e teria ficado restrito a poucos nomes: o próprio William, Andrea Duarte (PP), Rafael Estrela do Mar (PSDB) e Stefano Andrade (PV), desafiando a interferência do Executivo. Até a companheira de William na Mesa Diretora, a vereadora Rafaela Moraes (PP), também teria migrado para o grupo de Caldeira.
Vereadores de oposição ao Executivo e neutros
Em conversa com a coluna, o vereador Agente Dias (Republicanos) disse que ele e o vereador Dinho Souza (PL) permanecem neutros diante dessa guerra pelo poder instalada dentro do parlamento serrano.
A mão pesada do prefeito no tabuleiro 5D
O crescimento do grupo de Rodrigo Caldeira tem uma explicação que circula com força nos bastidores: a mão do prefeito municipal teria pesado na disputa para o lado do ex-presidente. Hoje, a base do prefeito Weverson Meireles (PDT) é composta por um grupo de 21 vereadores, mas efetivamente só tem 20. O vereador Fred, do PDT, encontra-se preso há quase três meses no sistema prisional capixaba.
O movimento chama atenção porque cria um cenário politicamente curioso. Rodrigo Caldeira foi reeleito vereador no partido do deputado estadual Pablo Muribeca (Republicanos), adversário direto do grupo político de Weverson na eleição municipal de 2024. Muribeca ficou em segundo lugar na disputa pela Prefeitura da Serra, sendo superado justamente por Weverson.
Mesmo assim, agora o grupo do prefeito parece disposto a assumir o risco e apoiar Caldeira para assumir o comando da Câmara, mesmo com a fama de mudar de lado a cada eleição, abrindo brecha para questionamentos.
Mágoas antigas parecem ter sido superadas
Nos bastidores, vereadores afirmam que o movimento vai além da disputa interna do Legislativo. O grupo do PDT da Serra aparentemente deixou de lado antigas divergências com Rodrigo Caldeira.
Em 2022, por exemplo, Caldeira rompeu com o então prefeito Sérgio Vidigal (PDT) ao se lançar candidato a deputado federal. Com isso, deixou de apoiar a candidatura da então primeira-dama da Serra, Sueli Vidigal (PDT), à Câmara dos Deputados. Além disso, teria puxado outros vereadores da base do prefeito para apoiar sua própria campanha, o que gerou forte irritação no grupo pedetista na época.
Correndo o risco de ser alvo da vingança do ex-prefeito Sérgio Vidigal devido à suposta traição em 2022, em 2024 Caldeira buscou refúgio no partido de Pablo Muribeca, onde conseguiu sua reeleição para vereador.
Agora, ao que tudo indica, essas mágoas do grupo pedetista foram colocadas de lado por um bem maior — qual seria? Já existem rumores nos bastidores.
Próximos capítulos dessa treta
Com troca de lados, articulações silenciosas, vereadores recuando em votação e grupos se reorganizando em poucos dias, o cenário na Câmara da Serra virou um verdadeiro jogo de poder. E, como em toda treta política, nada indica que o capítulo final já tenha sido escrito.
A Coluna Chico Prego segue acompanhando os desdobramentos dessa disputa que transformou o Legislativo serrano em algo digno do seriado House of Cards.
Porque, na política da Serra, quando uma cobra começa a engolir a outra, é sinal de que a próxima já está sendo preparada.
