Berlim, capital da Alemanha, é hoje um exemplo global de gestão urbana humanitária. Isso porque, suas ruas não têm cães abandonados. Esse resultado não surgiu por acaso, mas de décadas de priorização do bem-estar animal em leis, políticas públicas e na própria cultura da população. Enquanto muitas cidades ainda lidam com o abandono como um problema crônico, a Alemanha o tratou como questão de responsabilidade civil e ética coletiva.
O país adotou uma abordagem integrada que combina prevenção, fiscalização, educação e punição, garantindo que cada animal doméstico tenha um tutor identificado e comprometido com seu cuidado ao longo da vida.
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Registro obrigatório e microchip: a identidade do animal
Um dos pilares do sistema alemão é a obrigatoriedade do microchip e do registro para todos os cães — e, em muitos estados, também para gatos. O chip contém dados do tutor, como nome, endereço e telefone, permitindo rastreamento imediato em caso de fuga, perda ou suspeita de abandono.
Essa medida não apenas facilita a devolução de animais perdidos, mas também desencoraja o descarte irresponsável. Afinal, abandonar um cão com microchip é praticamente um ato de autodenúncia.
Responsabilidade legal e proibição de abandono
Na Alemanha, abandonar um animal é crime. Os tutores são legalmente obrigados a comunicar autoridades ou abrigos se não puderem mais cuidar do animal. Vender, doar sem registro ou simplesmente soltar o pet nas ruas pode resultar em multas pesadas, processos judiciais e até proibição futura de posse de animais.
Essa responsabilização extrema cria um senso de compromisso vitalício com o bem-estar do animal — um conceito profundamente enraizado na sociedade alemã.
Imposto anual: posse consciente e financiamento público
Outro mecanismo eficaz é o imposto anual sobre a posse de cães (Hundesteuer), que varia conforme a cidade e o número de animais. Em Berlim, por exemplo, o valor gira em torno de €120 por ano por cão. Embora modesto, o tributo cumpre dois papéis cruciais: desincentivar a aquisição impulsiva e gerar receita para programas de bem-estar animal, como abrigos públicos, campanhas de castração e fiscalização.
Gatos, embora isentos do imposto em muitas regiões, também estão sujeitos a registro e microchip em estados como a Bavária, demonstrando que a lógica se expande além dos cães.
Abrigos públicos e adoção como norma social
Os animais resgatados — seja por abandono, apreensão ou entrada voluntária de tutores em dificuldades — são encaminhados a abrigos públicos bem estruturados, muitos mantidos com recursos municipais. Esses centros oferecem cuidados veterinários, socialização e programas de adoção ativa.
A adoção é amplamente incentivada e vista como um ato cívico e ético. Campanhas governamentais e parcerias com ONGs garantem que a maioria dos animais encontre um novo lar em poucos meses. Além disso, a Alemanha acolhe animais de outros países, especialmente do sul da Europa, reforçando seu compromisso com a causa além das fronteiras nacionais.
Resultado: ruas limpas, mas não vazias de compaixão
O impacto é visível: não há cães de rua em Berlim, Munique, Hamburgo ou outras grandes cidades alemãs. Isso não significa que não existam animais desabrigados — eles simplesmente não permanecem nas ruas. São rapidamente resgatados, identificados e encaminhados a cuidados adequados.
Mais importante, a estratégia alemã demonstra que erradicar o abandono é possível quando o Estado assume o bem-estar animal como prioridade de política pública — e quando a sociedade internaliza que ter um animal é um direito condicionado à responsabilidade.
