A Polícia Civil do Estado do Espírito Santo (PCES), por meio da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, finalizou nesta terça-feira (17) o inquérito que apurou a trágica morte de Alice Rodrigues, de apenas seis anos. O crime aconteceu no dia 24 de agosto do ano passado, no bairro Balneário de Carapebus. A investigação resultou no indiciamento de 14 criminosos: nove já estão atrás das grades e cinco permanecem foragidos.
O planejamento estratégico e a ordem do ataque
As investigações revelaram que o assassinato de Alice não foi um acaso, mas o resultado de uma invasão planejada pela facção Primeiro Comando da Vitória (PCV) para retomar o território do Terceiro Comando Puro (TCP). De acordo com a Polícia Civil, o detento Lucas Almeida Pinheiro, conhecido como “Nakamura“, que cumpre pena em um presídio de segurança máxima, enviou uma carta ordenando que o grupo “explodisse” o bairro.
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O chefe da DHPP Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori, detalhou a frieza da organização. De acordo com ele, os criminosos realizaram uma conferência por aplicativo antes de agir:
“Foi um crime premeditado e planejado. O Sergio Raimundo Soares da Silva Filho, conhecido como Serginho Cauê, deu a ordem direta da execução e ele coordena as guerras do PCV no Espírito Santo. O Carlos Alberto dos Santos Gonçalves, conhecido como “Bequinha”, iniciou uma ligação de WhatsApp que durou 35 minutos para decidir todo o planejamento do ataque”.
Rodrigo Sandi Mori
Delegado-chefe da DHPP Serra
A rede de apoio e a participação da advogada
A estrutura criminosa contava com funções bem definidas. Enquanto Ryan Alves Cardoso, conhecido como “R7“, providenciou o veículo roubado e Vagner Antonio de Jesus Santos, conhecido como “Boca de Lata“, forneceu as munições, a advogada Marina de Paula dos Santos desempenhava um papel central na logística e na comunicação da facção. A polícia descobriu que ela transportava o marido, Marlon, para reuniões e facilitava a entrada e saída de ordens criminosas do sistema prisional.
O delegado Sandi Mori ressaltou o envolvimento direto da advogada nas conversas do grupo:
“A advogada Marina tinha total ciência dos ataques, levava o marido às reuniões e servia como ponte para ordens que saíam do presídio. Ela zombava das situações em conversas e intermediava ordens para o tráfico e homicídios”.
Rodrigo Sandi Mori
Delegado-chefe da DHPP Serra
Além disso, o delegado reforçou a eficácia da equipe em limpar a região da criminalidade:
“Elucidamos todos os homicídios que ocorreram no bairro Balneário de Carapebus e prendemos membros de ambas as facções que participaram de crimes na região”, concluiu o chefe da DHPP Serra.
Dinâmica do ataque e o assassinato de Alice Rodrigues
De acordo com o delegado adjunto da DHPP Serra, Paulo Ricardo Gomes, quatro executores saíram de uma base montada em área de mata com o objetivo de localizar “Batata”, gerente do tráfico local e liderança da facção rival. O grupo monitorou o alvo durante um festival de pipas, mas o perdeu de vista após ele deixar o evento.
Ao tentarem deixar o bairro em um veículo roubado, os criminosos circulavam em estado de alerta máximo, pois sabiam de um patrulhamento armado realizado pela facção inimiga (TCP) naquele momento. Durante o deslocamento, o motorista do bando, Luiz Fernando de Jesus Santos Brum, o “Barba”, colidiu contra a traseira do carro da família Rodrigues. O delegado explica que o reflexo do sol de fim de tarde, somado ao nervosismo pelo temor de um confronto com rivais, contribuiu para o acidente.
Acreditando que o veículo atingido pertencia aos inimigos, o atirador Pedro Henrique dos Santos Neves, conhecido como “Pedro Bala” ou “PB”, abriu fogo diversas vezes contra o carro ocupado pela família. Em depoimento, Pedro tentou se eximir da culpa, negando a autoria dos disparos e atribuindo o crime a uma terceira pessoa que sequer estava no local. No entanto, os outros três ocupantes do carro foram unânimes em apontar Pedro como o responsável pelos tiros que mataram Alice.
O delegado Paulo Ricardo Gomes descreveu o momento de horror vivido pela família:
“O pai da criança desembarcou do veículo e suplicou pela vida da filha, pedindo para que eles parassem de disparar. Eles perceberam o erro, pararam os tiros e começaram a empreender fuga a pé porque o eixo do carro quebrou.”
Paulo Ricardo Gomes
Delegado adjunto da DHPP Serra
Fuga desesperada
Após o assassinato, os criminosos abandonaram o carro (onde deixaram uma granada) e tentaram roubar uma motocicleta em uma sorveteria próxima. Sem sucesso, eles sequestraram outra família para garantir a fuga de volta à base na mata.
Execução
Apesar do erro que vitimou a criança, a facção não interrompeu as ofensivas na região. O alvo original, o traficante “Batata”, acabou executado pouco tempo depois, no dia 29 de setembro. Criminosos invadiram a residência do gerente do tráfico e o assassinaram em um duplo homicídio. Segundo a polícia, alguns dos envolvidos na execução de “Batata” eram os mesmos que participaram do ataque que resultou na morte da menina Alice.
Atualmente, o PCV predomina no bairro Balneário de Carapebus, embora ainda existam focos isolados de resistência. A Polícia Civil continua as buscas pelos cinco foragidos, incluindo as lideranças que se escondem em comunidades do Rio de Janeiro.
Organograma da Organização Criminosa
Confira a situação de cada um dos 14 indiciados pela Polícia Civil:
Criminosos Presos (9):
- Lucas Pinheiro (“Nakamura”) – Mentor intelectual (presídio)

- Maik Rodrigues (“MK”) – Transmissor de ordens e identificador de alvos

- Marlon Furtado – Planejador e recrutador de soldados

- Marina de Paula – Advogada; intermediação e logística

- Pedro Henrique dos Santos (“Pedro Bala”) – Executor dos disparos.

- Luiz Fernando de Jesus Santos B. (“Barba”) – Motorista no dia do crime.

- Bruno Serri Cavalcante – Apoio armado (portava granada).

- Arthur Folli Rocha – Monitoramento de viaturas.

- Izaque de Oliveira Moreira – Responsável por garantir a fuga.

Criminosos Foragidos (5):
Vagner Antonio de Jesus (“Boca de Lata”) – Fornecimento de armas e munições.

Sergio Raimundo Soares (“Serginho Kauê”) – Mandante principal e líder da facção.

Ryan Alves Cardoso (“R7”) – Aquisição do veículo roubado.

Matheus Farias (“Bequinha”) – Planejamento via conferência telefônica.

Carlos Alberto dos Santos (“Boca Preta”) – Planejamento e articulação.

Sabe de alguma coisa?
A Polícia Civil sempre destaca que a população tem um papel importante nas investigações e pode contribuir com informações de forma anônima através do Disque-Denúncia (181) ou do perfil oficial da Delegacia de Homicídios da Serra no Instagram: @DHPP.Serra
O anonimato é garantido e todas as informações fornecidas são investigadas.
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