Uma grave disputa interna pelo comando da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Carapina (IEADC), na Serra, chegou ao Judiciário capixaba com acusações que vão de falsidade ideológica e uso de documento falso a associação criminosa e apropriação indevida de recursos.
A ação foi movida pelo ex-vice-presidente da IEADC, Elielton Radis de Oliveira, contra o atual presidente da instituição, o pastor Altamir Firmino de Mattos, além de outros dirigentes e membros ligados à atual gestão da igreja. O processo tramita na 1ª Vara Criminal da Serra e pede a responsabilização penal dos envolvidos, além de indenização por danos morais no valor de R$ 50 mil.
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O motivo central da disputa: da sucessão frustrada à crise institucional
Segundo a petição inicial do processo, Elielton foi eleito vice-presidente com respaldo da própria liderança da época, com expectativa de suceder Altamir, quando este anunciou seu desejo de se afastar da presidência por meio de pedido formal de jubilação, o equivalente à aposentadoria pastoral. O afastamento foi aprovado em assembleia geral ordinária, dando início à transição de liderança.
Entretanto, poucos meses depois, Altamir reassumiu a presidência da igreja, anulando na prática a deliberação da assembleia que havia validado sua jubilação. O retorno, segundo Elielton, não teve respaldo estatutário e ignorou o processo sucessório acordado internamente.
A denúncia aponta que, desde então, Elielton foi afastado da gestão e impedido de exercer suas funções como vice-presidente, além de ter sido excluído de decisões administrativas e alvo de retaliações dentro da própria instituição.
Ex-vice presidente denuncia manipulação de estatuto da igreja
Um dos principais pontos da denúncia gira em torno da manipulação do estatuto da igreja. Dessa forma, Elielton alega que o grupo liderado por Altamir teria fraudado documentos oficiais e elaborado um novo estatuto com dispositivos que permitem ao presidente indicar seu sucessor, sem necessidade de votação pela Assembleia Geral — violando, portanto, o modelo democrático anteriormente adotado.
Retorno à presidência agravou divisão na igreja
Segundo Elielton, a volta ao cargo se deu de forma autoritária, desconsiderando o processo de sucessão e gerando insegurança jurídica e conflitos internos. O atual presidente teria, inclusive, trocado fechaduras da sede administrativa da igreja, instalado segurança patrimonial privada e impedido o acesso de Elielton e seus apoiadores a áreas da instituição, inclusive a documentos e contas bancárias.
A situação provocou assembleias paralelas, expulsões internas e uma intensa crise de governança, com fiéis divididos entre os dois lados e denúncias se acumulando. Segundo a petição, membros que questionavam a nova gestão foram afastados ou desmoralizados, enquanto decisões eram tomadas sem consulta aos órgãos colegiados da igreja.
O que Elielton pede na Justiça
Na ação penal movida por Elielton, ele acusa o atual presidente da IEADC, Altamir Firmino de Mattos, e outros 12 envolvidos de uma série de crimes administrativos e documentais que teriam sido cometidos para sustentar a retomada de poder por parte do pastor e eliminar a possibilidade de alternância na liderança da igreja. Dessa forma, o ex-vice-presidente Elielton Radis solicita que a Justiça acolha a denúncia e instaure processo penal pelos seguintes crimes:
- Falsidade ideológica: pela elaboração e registro de atas e estatutos com conteúdo falso (art. 299 do Código Penal);
- Uso de documento falso: com apresentação de atas adulteradas e assinaturas obtidas, segundo ele, de forma enganosa (art. 304);
- Formação de organização criminosa: por atuar em grupo para manter o controle institucional por meios ilícitos (art. 288);
- Apropriação indébita e gestão fraudulenta: por suposto uso irregular de recursos e bens da igreja.
Além da responsabilização penal dos acusados, Elielton também pleiteia indenização por danos morais no valor de R$ 50 mil, argumentando que sua honra, integridade pessoal e imagem pública foram gravemente prejudicadas em virtude das ações do grupo liderado por Altamir.
Ele solicita ainda medidas cautelares urgentes, incluindo:
- O afastamento de Altamir das dependências da IEADC;
- A proibição de exercer qualquer ato administrativo ou financeiro em nome da igreja;
- A preservação de documentos e registros contábeis e estatutários, para evitar destruição ou adulteração de provas.
O processo, protocolado no dia 10 de julho, aguarda manifestação do Ministério Público do Espírito Santo, que poderá se posicionar pela continuidade, arquivamento ou abertura de investigação complementar. Se a denúncia for aceita, os acusados serão citados para apresentar defesa e poderão responder criminalmente às acusações.
Denúncia contra Elielton foi arquivada pela Marinha
Em meio ao agravamento da crise institucional dentro da IEADC, Elielton afirma que passou a ser alvo de uma campanha de difamação e retaliação pessoal, promovida, segundo ele, por integrantes da atual gestão. Uma das tentativas mais graves de desestabilizá-lo ocorreu fora do ambiente eclesiástico: uma denúncia foi protocolada contra ele na Marinha do Brasil, onde atua como militar da ativa.
A acusação buscava questionar sua conduta ética e profissional, com o objetivo — segundo ele — de forçar seu afastamento não só da igreja, mas também da carreira militar. No entanto, após análise do conteúdo e das circunstâncias, a Marinha arquivou o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) instaurado, por ausência de indícios de irregularidade ou materialidade nos fatos relatados.
O arquivamento, segundo o autor da ação, reforça que a denúncia teve motivação política e institucional, e se tratava de uma tentativa de retaliação por conta de sua atuação crítica e fiscalizadora dentro da IEADC.
Além do processo militar arquivado, Elielton relata ter sido alvo de comentários difamatórios, ameaças veladas, isolamento deliberado dentro da congregação e hostilidade crescente, inclusive em redes sociais. Ele afirma que tudo isso afetou sua saúde emocional, sua imagem pública e sua liberdade de atuação religiosa.
Outros pedidos foram negados na justiça
Conforme apurado pela reportagem do Serra Noticiário, esta não é a única ação movida por Elielton contra o pastor Altamir. Em outro processo, de nº 5038828-94.2024.8.08.0048, que tramita na 1ª Vara Cível da Serra, o ex-vice-presidente solicita a anulação do estatuto da IEADC, a intervenção judicial na administração da igreja e o afastamento imediato de Altamir do ministério.
No entanto, em decisão recente, a Justiça negou o pedido liminar, alegando ausência de provas suficientes para justificar uma medida de tamanha gravidade sem análise aprofundada dos autos. Segundo trecho da decisão judicial:
“Inexiste prova inequívoca da ilegalidade dos atos questionados pelo autor, sendo necessária dilação probatória. Trata-se de litígio interno que exige análise aprofundada do estatuto e da validade dos atos administrativos, inviabilizando medidas liminares que interfiram na gestão da igreja.”
1ª Vara Cível da Serra
O juízo também enfatizou que o afastamento de Altamir ou a suspensão de assembleias representaria ingerência indevida na autonomia eclesiástica, princípio garantido pela Constituição Federal. Dessa forma, por ora, o pedido foi rejeitado.
Encaminhamentos e expectativa de desdobramentos judiciais
O caso, que expõe uma crise sem precedentes na Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Carapina (IEADC), segue em tramitação na 1ª Vara Criminal da Serra, onde os autos aguardam o parecer do Ministério Público Estadual. A depender da análise do MP, a Justiça poderá acatar a denúncia, determinar novas diligências ou optar pelo arquivamento da ação.
Serra Noticiário entrou em contato com a atual diretoria da IEADC
Até o momento, nenhum dos denunciados apresentou resposta formal pública às acusações. O Serra Noticiário entrou em contato com a defesa que representa da atual diretoria da IEADC para buscar manifestação dos citados, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
A disputa jurídica, que envolve líderes religiosos com forte influência local, poderá impactar profundamente o futuro da instituição, que reúne centenas de fiéis na região de Carapina e em diversas congregações espalhadas pelo município da Serra. O desfecho do processo pode ainda estabelecer precedentes sobre governança, sucessão e prestação de contas dentro de instituições religiosas.
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O Serra Noticiário segue acompanhando o caso e trará novas atualizações à medida que o processo avançar no Judiciário.
