O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) apresentou, nesta quarta-feira (13), denúncia criminal contra quatro vereadores em exercício na Câmara Municipal da Serra, além de dois ex-parlamentares, por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção. O órgão também solicitou à Justiça o afastamento imediato dos atuais mandatos, argumentando que a permanência dos investigados nos cargos pode prejudicar a apuração e permitir a continuidade das práticas ilícitas.
Os quatro denunciados compõem a base aliada do atual prefeito da Serra, Weverson Meireles (PDT), na Câmara Municipal. Dois deles, inclusive, são filiados ao mesmo partido do chefe do Executivo.
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Quem são os denunciados:
- Saulinho da Academia (PDT), presidente da Câmara Municipal;
- Teilton Valim (PDT);
- Cleber Serrinha (MDB);
- Wellington Alemão (Rede).
Além deles, a denúncia inclui os ex-vereadores Luiz Carlos Moreira, atual presidente do MDB na Serra, e Aloísio Ferreira Santana. Conforme a investigação, Moreira e Santana teriam atuado como intermediários dos interesses de um empresário para aprovar alterações que favorecessem diretamente um empreendimento privado.

Denúncia do MPES
Segundo o MPES, o grupo teria articulado a inclusão de emendas em um projeto de lei encaminhado pelo Executivo municipal, mediante promessa de pagamento em dinheiro ou em bens de alto valor. As negociações foram registradas em áudio e circulam desde o início deste ano em redes sociais e grupos de WhatsApp. Confira a íntegra do áudio abaixo:
Como o caso veio à tona
O episódio ganhou repercussão pública no início de 2025, quando um morador de Serra-sede, Rafael Moraes, teve acesso ao áudio de uma reunião entre os parlamentares e decidiu denunciar o conteúdo ao Ministério Público. Antes mesmo de chegar oficialmente às autoridades, o material já havia viralizado na internet, principalmente em aplicativos de mensagens.
Na época, apenas um veículo de comunicação noticiou o caso de forma direta. O jornalista do site Realidade Capixaba, Marcelo Paranhos, que publicou trechos do áudio e expôs detalhes das conversas.
O projeto e as emendas
O centro das acusações é o Projeto de Lei nº 69/2024, encaminhado pelo então prefeito Sérgio Vidigal (PDT) à Câmara no dia 7 de março de 2024. A proposta original previa a regularização de imóveis urbanos de propriedade do município, permitindo que pessoas que já detinham o uso dos terrenos pudessem obter a posse legal. O MPES destaca que não há indícios de participação do prefeito nas irregularidades.
Durante a tramitação, a matéria recebeu duas emendas — uma delas atribuída ao vereador Wellington Alemão — que ampliavam significativamente a lista de imóveis passíveis de regularização. A modificação, segundo o MPES, atenderia a interesses específicos do empresário ligado a Aloísio Santana e Luiz Carlos Moreira.
Em 27 de maio de 2024, o projeto foi colocado em regime de urgência a pedido da prefeitura e aprovado no mesmo dia, em duas votações relâmpago: a primeira durou cerca de um minuto, e a segunda, pouco mais de quatro minutos.
No dia 20 de junho, o próprio prefeito Vidigal vetou o texto, alegando que as emendas violavam princípios constitucionais, como a separação de poderes e a necessidade de licitação para a alienação de bens públicos.
A negociação e o áudio
A investigação aponta que, horas antes da votação, os vereadores Saulinho e Cleber se reuniram com Wellington Alemão para discutir a inclusão da emenda. A conversa foi gravada e, de acordo com o MPES, indica que Alemão teria negociado vantagem financeira — inicialmente R$ 100 mil — a ser dividida entre os envolvidos.
Posteriormente, segundo a denúncia, a proposta em dinheiro teria sido substituída por um terreno de 6 mil metros quadrados na Praia de Carapebus, também na Serra. Essa mudança teria causado insatisfação no grupo, mas não impediu a aprovação da alteração.
Base legal para o afastamento
O Ministério Público sustenta que há indícios suficientes para caracterizar corrupção passiva, crime que ocorre quando um agente público solicita, recebe ou aceita promessa de vantagem indevida em razão de sua função. Para os promotores, o afastamento é fundamental para evitar interferências no processo e impedir que novas irregularidades sejam cometidas durante o exercício do mandato.
Próximos passos
O pedido de afastamento e a denúncia criminal estão sob análise da Justiça. Caso aceito, além do afastamento, o processo poderá levar à perda dos mandatos e à responsabilização penal dos envolvidos.
O que diz os denunciados?
Até o momento, o único a se pronunciar publicamente sobre a denúncia foi o vereador Wellington Alemão. Ele afirmou confiar plenamente na Justiça e declarou estar à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades. O parlamentar destacou que sua trajetória política, segundo ele, sempre foi pautada pelo respeito às leis, seriedade e compromisso com o bem-estar coletivo. Também reafirmou o compromisso de continuar representando a população da Serra e trabalhando pelo desenvolvimento da cidade.
NOTA OFICIAL
Wellington Alemão
Ao tomar conhecimento dos fatos divulgados pela imprensa, reafirmo à população da Serra meu compromisso inabalável de representar e trabalhar pelo desenvolvimento de nossa cidade.
Confio plenamente na justiça e me coloco, como sempre, à inteira disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborando de forma transparente e responsável com as autoridades competentes.
Minha atuação como vereador sempre se baseou no respeito às leis, na seriedade e no compromisso com o bem-estar coletivo.
