Nesta quinta-feira (04), a Polícia Civil do Espírito Santo (PCES), por meio da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, apresentou a conclusão do inquérito que investigou o assassinato de dois adolescentes, ocorrido em 23 de julho deste ano no Bairro das Laranjeiras, na região de Jacaraípe, na Serra. As vítimas foram identificadas como Victor Miguel da Silva Bonfim, de 14 anos, e João Lucas Félix Bendel, de 15 anos.
A investigação apontou que o duplo homicídio foi motivado pela disputa territorial entre facções rivais ligadas ao tráfico de drogas. Os autores, Nicolas Venancio Santos, conhecido como “Gradinha”, de 18 anos, e Welton dos Santos Souza, o “Riquinho”, de 20 anos, já foram presos e respondem como réus.
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O chefe da DHPP da Serra, delegado Rodrigo Sandi Mori, explicou que o Bairro das Laranjeiras e o Balneário de Carapebus estão entre os locais mais violentos do município em 2025. Segundo ele, somente no Bairro das Laranjeiras, entre maio e outubro, vinte pessoas foram alvejadas por disparos de arma de fogo, sendo oito homicídios consumados e doze tentativas. Os casos estão relacionados ao conflito entre criminosos da Rua XV, aliados ao Terceiro Comando Puro (TCP), e da Rua São Paulo, ligados ao Primeiro Comando de Vitória (PCV).
“Em razão dessa guerra, intensificamos as investigações no bairro. Esclarecemos grande parte dos homicídios e realizamos prisões importantes, como as apresentadas hoje. Vamos alcançar os que ainda restam para cessar essa disputa e devolver tranquilidade aos moradores das Laranjeiras”, afirmou o delegado.
Sandi Mori ressaltou que facções utilizam adolescentes para executar homicídios e ganhar espaço no tráfico. “Para eles se graduarem no tráfico de drogas, precisam matar para ganhar a confiança dos líderes. Os mais novos são usados como braço armado e buscam ascensão cometendo homicídios”, disse.
Dinâmica do crime
O adjunto da DHPP da Serra, delegado Paulo Ricardo, explicou que os autores foram até o clube onde as vítimas estavam para interrogá-las sobre a morte de um integrante do PCV ocorrida no ano anterior. As vítimas, adolescentes de 14 e 15 anos que atuavam no tráfico na região da Rua São Paulo, não forneceram respostas e, por isso, foram revistadas e levados até uma área de mata próxima, onde acabaram executadas.
Nicolas alegou, em conversas identificadas na extração de dados de seu celular, que teria sido ameaçado por uma das vítimas no passado. Porém, segundo o delegado, essa versão não se sustenta. “A distância temporal entre a suposta ameaça e o crime não justifica a brutalidade. O verdadeiro motivo foi a guerra de facções e a oportunidade que ele viu para ascender no TCP”, afirmou.
Vídeo Youtube SN:
Sangue frio
Ainda conforme o delegado, Nicolas cogitou matar as namoradas dos adolescentes, ambas menores de idade, sendo uma delas gestante. “Ele só não consumou o ato porque o coautor interveio e porque entendeu que, se houvesse chacina, o cerco policial seria maior”, explicou Paulo Ricardo.
“Tipo, o bagulho… Mano, quando a gente chegou na chácara lá e pegou os menor, a gente pediu pra mulher apagar a câmera. A mulher apagou. A única coisa que a mulher falou pros polícia foi que eu e o outro parceiro meu tínhamos o cabelo pintado, tá ligado? E aí, o que foi, mano, foram as duas meninas, as duas namoradas deles, entendeu? Só que, tipo, se a gente matasse as meninas, mano, também ia ser tipo chacina, tá ligado? Porque ia ser quatro, e cinco com o neném que estava na barriga. A menina estava grávida, tá ligado? Aí era pior ainda… chance de policial… meu Deus do céu, tava f#dido.”
Áudio de Voz de Nicolas Venancio Santos encontrado no celular apreendido.
Preocupação em apagar rastros
Logo após o crime, a dupla retornou ao local e ordenou que a proprietária apagasse as imagens das câmeras, numa tentativa de eliminar provas. A equipe da DHPP chegou ao endereço cerca de 20 minutos depois e ouviu da proprietária que não havia gravações. Mesmo assim, os policiais apreenderam o DVR e confirmaram a ausência de registros, sendo possível identificar nas análises telefônicas que os autores tentaram apagar evidências do crime.
Embora tenham permanecido em silêncio durante a investigação, os dois foram confrontados com um conjunto de provas consideradas determinantes pela polícia. As análises técnicas e testemunhais revelaram trechos de confissão encontrados no celular de Nicolas, além de demonstrações de frieza diante da possibilidade de matar testemunhas, o que reforçou a materialidade e a autoria do duplo homicídio.
O delegado destacou ainda que o duplo homicídio repercutiu dentro da facção criminosa à qual os autores buscavam se aproximar. “Para a sociedade, isso é repugnante; para a facção, é louvável, pois tiraram de circulação dois rivais”, declarou Paulo Ricardo.
Com todas as provas reunidas, a DHPP Serra encerrou o inquérito e aguarda a continuidade do processo judicial contra os dois suspeitos. Nilolas e Welton foram indiciados por duplo homicídio qualificado pelo motivo torpe e impossibilidade de defesa das vítimas e associação ao tráfico. Ambos já respondem como réus na ação penal.
Veja mais detalhes no vídeo abaixo, com as falas dos delegados da DHPP Serra, Rodrigo Sandi Mori e Paulo Ricardo.
