A prisão de um jovem de 20 anos e de seu pai, de 50 anos, na tarde desta quarta-feira (22), no bairro Novo Horizonte, na Serra, colocou um ponto final na fuga de uma dupla acusada de um crime que chocou São José de Mantenópolis, no Noroeste do estado. O caso, que envolve uma disputa de terras entre irmãos, terminou com o assassinato brutal de Victor Maycon Costa de Souza, de 26 anos, e deixou o pai dele, de 56 anos, internado em estado grave após ser baleado na cabeça.
A operação integrada entre as polícias Civil e Militar revelou que o crime foi o ápice de uma série de “relias” (desavenças) familiares antigas. De acordo com informações colhidas pelo repórter Wal Júnior para o SN, os detalhes do crime apontam para uma premeditação alimentada por conflitos patrimoniais e consumo de substâncias.
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Treta de família: sinuca, bebida e a tentativa de trocar uma moto por arma
O desentendimento começou no último domingo (19), em um bar da região. Os quatro envolvidos — dois irmãos e seus respectivos filhos — estavam jogando sinuca quando uma discussão entre os mais velhos saiu do controle. Segundo o delegado adjunto da DHPP Serra, Paulo Ricardo Gomes, o cenário era de extrema tensão:
“Eles entram no entrevero e o pai do autor direto decide sair do local. Ele fala no interrogatório que saiu de lá para procurar uma arma. Inclusive, ele tentou trocar a sua motocicleta por uma arma ali no momento, mas não conseguiu de pronto para executar o irmão e o primo”, revelou o delegado Paulo Ricardo.
As câmeras de segurança do estabelecimento registraram a agressividade do confronto. O delegado Robson Peixoto de Oliveira, titular da DP de Mantenópolis, detalhou que os filhos tentaram intervir na briga dos pais, mas a situação escalou quando um dos jovens sacou uma faca para atacar o tio e o primo. Após ameaças mútuas de morte, os grupos foram separados temporariamente, mas a promessa de violência seria concretizada momentos depois.
Após o desentendimento inicial no bar, a investigação aponta que o crime não foi um ato de impulso imediato, mas uma ação de busca ativa pelas vítimas. O autor, de 20 anos, demonstrou frieza ao perseguir os parentes após o conflito pela posse de terras.
Execução em dois tempos: Campo e Rodovia
De acordo com o relato do delegado Robson Peixoto de Oliveira, o jovem retornou ao estabelecimento armado com um revólver calibre .38. Ao perceber que o tio e o primo já haviam saído, ele iniciou uma busca pela região:
- Vítima 1 (Victor Maycon): O autor encontrou o primo no campo de futebol de São José de Mantenópolis. Sem chances de defesa, Victor foi alvejado com um tiro na cabeça. Ele chegou a ser socorrido para um hospital local, mas a morte cerebral foi confirmada pouco depois.
- Vítima 2 (O Tio): Após o primeiro disparo no próprio primo, o criminoso não fugiu de imediato. Ele seguiu em direção à rodovia. Cerca de 500 metros à frente, encontrou o próprio tio. Repetindo o modus operandi, disparou contra a cabeça do familiar, que caiu gravemente ferido. Segundo a polícia, o homem de 56 anos permanece internado sob cuidados intensivos em Colatina.
A conexão com a Serra: fuga e resgate em Pancas
A fuga dos suspeitos foi minuciosamente detalhada pela equipe da DHPP Serra. O pai do atirador, de 50 anos, não apenas presenciou o crime, como foi o mentor da logística de retirada do filho da cena do crime.
A caminho da Grande Vitória, os dois pararam no município de Pancas. Foi neste ponto que a rede de apoio familiar se tornou evidente. Um segundo filho do homem de 50 anos (irmão do autor do crime) saiu da Serra em um veículo para encontrá-los e completar o resgate.
“Pararam em Pancas, veio um veículo da Serra. Neste veículo estava um irmão do autor, que foi a Pancas para realizar seu resgate. Trouxeram o autor para a Serra”, detalhou o delegado Robson Peixoto.
Eles ficaram escondidos em uma residência no bairro Novo Horizonte, local onde acreditavam estar seguros longe da jurisdição do interior. No entanto, o trabalho de inteligência integrado entre o 6º Batalhão da PM e a Polícia Civil localizou o paradeiro da dupla nesta última quarta-feira (22).
Arma do crime ainda não foi localizada
Um detalhe que ainda intriga os investigadores é o paradeiro da arma utilizada nos ataques. Durante o interrogatório realizado na Serra, o jovem confessou o crime, mas afirmou ter se desfeito do revólver .38 durante o trajeto.
“O indivíduo falou que jogou a arma no trajeto entre Mantenópolis e Pancas. Estamos investigando para ver se conseguimos localizar essa arma de fogo também”, afirmou o delegado titular de Mantenópolis.
Segundo a polícia, a captura dos envolvidos na Serra não foi fruto do acaso, mas de uma operação que integrou tecnologia e cooperação entre diferentes unidades do estado. Com a prisão efetuada, o foco agora se volta para a conclusão do inquérito e o processo judicial.
Dificuldade de prevenir o “crime de proximidade”
Durante a coletiva de imprensa, o Tenente-coronel Maurício, comandante do 6º Batalhão da PM na Serra, trouxe uma reflexão importante sobre a natureza deste crime. Ele explicou que, embora o policiamento seja ostensivo, tragédias que nascem dentro do núcleo familiar apresentam desafios únicos:
“O objetivo das forças de segurança é sempre evitar o crime. Mas um crime como esse, de proximidade, é muito difícil de ser evitado com a nossa ação preventiva comum. As forças de segurança atuam nestes casos para garantir a captura rápida e a punição desses indivíduos que cometeram um ato bárbaro”, afirmou o Tenente-coronel Maurício.
O Delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno, reforçou que o investimento em ferramentas de inteligência tem sido levado para as unidades do interior, permitindo que criminosos sejam rastreados mesmo quando tentam se esconder na Grande Vitória.
Acusações e investigação complementar
Pai e filho já foram encaminhados ao sistema prisional. A Polícia Civil detalhou as tipificações penais que a dupla enfrentará:
- Homicídio Qualificado: Pela morte de Victor Maycon.
- Tentativa de Homicídio Qualificado: Pelo disparo contra o tio.
- Rede de Apoio: A conduta do irmão do atirador, que saiu da Serra para buscá-los em Pancas, ainda está sob investigação. A polícia quer determinar se ele tinha conhecimento prévio do crime ou se apenas prestou auxílio na fuga.
Polícia segue na busca pela arma do crime
A Polícia Civil continua as buscas pelo revólver calibre .38. O depoimento do autor, indicando que a arma foi descartada em uma área de mata ou rodovia entre Mantenópolis e Pancas, está sendo verificado.
Enquanto isso, a comunidade de São José de Mantenópolis segue em luto por Victor Maycon. O pai dele, vítima do segundo disparo, permanece sob observação médica rigorosa. O inquérito policial está em fase final de conclusão e será relatado ao Poder Judiciário nos próximos dias.
“A arma não foi encontrada, mas o trabalho continua. O importante é que a resposta do Estado foi dada”, concluiu o delegado Robson Peixoto.
