Um policial civil do Departamento Especializado em Narcóticos (DENARC) é investigado por suspeita de desviar parte de uma carga de crack apreendida durante uma operação na BR-101, no Sul do Espírito Santo. A droga teria saído de São Paulo com destino a um grupo criminoso ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação na região da Ilha do Príncipe, em Vitória.
O caso ocorre em meio a outras investigações recentes sobre desvio de drogas no Espírito Santo. Em apuração conduzida pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES), autoridades identificaram suspeitas de envolvimento de policiais civis em um esquema semelhante, no qual entorpecentes apreendidos eram desviados e reintroduzidos no mercado ilegal.
Leia Mais ∎
As informações foram reveladas em reportagem do programa Fantástico, que teve acesso a áudios, vídeos e depoimentos sobre a atuação de agentes ligados ao Departamento Especializado em Narcóticos (DENARC).
Desvio de crack
O Ministério Público (MPES) apresentou duas denúncias sobre o caso, sendo a mais recente protocolada no dia 13 de fevereiro deste ano. As investigações apontam que a apreensão ocorreu em dezembro de 2023, no município de Rio Novo do Sul, durante uma ação conduzida pelo policial civil Erildo Rosa Júnior, que acabou preso posteriormente na Operação Turquia, junto com outros dois agentes, por suspeita de envolvimento com tráfico e desvio de drogas apreendidas. As informações foram divulgadas pela colunista Vilmara Fernandes, de A Gazeta.
Denúncias e investigação
Segundo a colunista, as informações que embasam o caso surgiram a partir do depoimento do traficante Yago Saib Bahia da Silva, conhecido como “Passarinho”, investigado nas operações Pardal e Turquia, conduzidas pelo MP em parceria com a Polícia Federal (PF).
De acordo com o relato, uma carga de oito quilos de crack enviada de São Paulo ao Espírito Santo foi interceptada, mas apenas dois quilos teriam sido oficialmente registrados no DENARC. Os outros seis quilos, conforme a apuração, teriam sido desviados.
Ainda conforme as informações, Yago afirmou que questionou outro policial sobre a apreensão, identificado como Eduardo Tadeu Ribeiro Batista da Cunha, conhecido como “Dudu”, também preso na mesma operação. Segundo ele, a responsabilidade pela ocorrência seria do policial Erildo.
As investigações também apontaram que o inquérito policial sobre o caso permaneceu sem conclusão desde 2023 e que diligências solicitadas pelo Ministério Público não foram realizadas.
Celulares e provas
Durante a apuração, foi identificado que os celulares apreendidos com a pessoa responsável pelo transporte da droga estavam prestes a ser destruídos, após solicitação da equipe policial. O pedido, no entanto, foi negado pela Justiça.
A análise dos aparelhos revelou detalhes sobre a comercialização da droga, incluindo imagens da substância e informações sobre o transporte. Segundo o Ministério Público, os dados indicam que havia cinco pacotes, embora apenas dois tenham sido apresentados oficialmente.
Como ocorreu a apreensão
A droga foi encontrada dentro de um ônibus que fazia a linha entre São Paulo e Vitória. A responsável pelo transporte, identificada como Josélia Soares Lopes Rebouças, levava o material em uma bolsa. Conforme o registro da ocorrência, dois pacotes de crack, pesando cerca de dois quilos, foram apreendidos.
A prisão ocorreu no dia 18 de dezembro de 2023, por volta das 11 horas. De acordo com o MP, os policiais saíram da Serra até Rio Novo do Sul, percorrendo cerca de 130 quilômetros, após indicação de um policial aposentado.
Os dados extraídos do celular de Josélia apontaram ligação com integrantes do PCC e revelaram que ela realizava o transporte de drogas há mais de três anos para diversos estados, como Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraná, Goiás, Alagoas, Mato Grosso do Sul, Pará, Mato Grosso e Santa Catarina.
As mensagens também detalhavam o passo a passo do transporte, incluindo retirada da droga, forma de embalagem e acompanhamento da viagem.
Josélia foi liberada em audiência de custódia, mas acabou denunciada pelo Ministério Público em fevereiro deste ano por crimes relacionados ao tráfico, incluindo transporte interestadual de drogas.
O que dizem as defesas
A defesa do policial Erildo afirma que ele participou da apreensão dentro da legalidade e que registrou corretamente a ocorrência. Segundo o advogado Frederico Pozzatti de Souza, todo o material foi encaminhado às autoridades competentes, incluindo o Ministério Público e o Judiciário.
A defesa sustenta ainda que eventuais desdobramentos posteriores não podem ser atribuídos ao policial, pois não fazem parte de sua responsabilidade funcional. Os advogados dos outros citados no caso não foram localizados.
