No último fim de semana, a reportagem do Serra Noticiário teve acesso o relato de Ana Miranda, de 28 anos, que acusa negligência médica no Hospital Materno Infantil da Serra após a morte de seu filho, Hugo, poucas horas após o nascimento. O parto ocorreu no dia 1º de junho de 2025, e o bebê faleceu na madrugada do dia 2 de junho.
Em entrevista exclusiva, Ana detalhou o que descreve como falhas graves no atendimento, incluindo ausência de monitoramento fetal, demora na realização de cesárea de emergência e falta de acompanhamento contínuo durante o trabalho de parto.
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A reportagem entrou e contato com a Prefeitura Municipal da Serra (PMS), junto à Secretaria de Saúde e a administração do hospital para pedir esclarecimentos sobre o caso e as causas da morte do bebê, mas até o momento não obteve respostas.
Mãe relata que deu entrada no hospital com sangramento intenso
Em conversa com a reportagem do Serra Noticiário, Ana relatou que sua bolsa estourou por volta de 9h da manhã do dia 1 de junho. A mãe conta que atualmente reside em Vila Velha, mas decidiu dar à luz a Hugo também no Hospital Materno Infantil da Serra.
Ana conta que deu entrada no hospital por volta das 13h20, após a ruptura da bolsa e início de sangramento intenso. Ela já tinha histórico de cesárea no parto do primeiro filho, o que, segundo ela, aumentava o risco de complicações.
Logo após a triagem, Ana afirma que foi avaliada por uma obstetra, que identificou 5 cm de dilatação, sangramento e fortes dores. Diante disso, a mãe afirma que a médica solicitou internação imediata para cesárea de emergência.
No entanto, segundo Ana, outra obstetra a avaliou em seguida, não realizou novos exames e apenas administrou medicação para dor, dizendo que a cirurgia seria feita em 30 a 40 minutos. Esse tempo, no entanto, se estendeu por mais de cinco horas.
Gestante teria ficado sem monitoramento e sem avaliação contínua
Um dos pontos mais graves relatados por Ana é a ausência de monitoramento fetal após sua entrada no hospital. Os batimentos cardíacos do bebê foram verificados apenas uma vez, no momento da triagem, e estavam normais.
“Depois disso, não fizeram nenhuma avaliação no Hugo. Nenhuma pessoa foi lá me ver, nenhuma foi me avaliar, medir batimento cardíaco, nada”
Ana Miranda
Durante esse período, ela permaneceu em uma sala de medicação, sem acompanhamento obstétrico contínuo. Seu irmão chegou a fazer a documentação da internação, mas a cirurgia não foi realizada.
Mãe relata que só foi atendida após reclamar no Hospital
Em conversa com a reportagem, Ana contou que ficou por horas no aguardo do parto e isso lhe fez cogitar ir para outro hospital. A mãe conta ainda que ameaçou “quebrar o hospital” diante de toda dor e estresse que estava passando, e que só após isso, a equipe médica agilizou o seu parto.
“Liguei para a minha mãe e falei com ela que eu ia começar a quebrar o hospital, porque estava uma palhaçada já. Me internaram para cesárea de emergência, até agora não tinha feito cesárea nenhuma, porque eu falei que era melhor falar que não ia ter como fazer, porque qualquer coisa eu ia para outro hospital por meios próprios, para resolver mais rápido, não ficar enrolando e me deixando lá sozinha”
Ana Miranda
Dilatação avançou e cesárea se tornou mais complexa
A mãe contou para a reportagem que quando a primeira obstetra retornou e soube que a cesárea não havia sido feita, questionou a equipe sobre a demora. Contudo, ela teria sido informada de que haveria uma “intercorrência” no centro cirúrgico.
Nesse intervalo, a dilatação de Ana avançou para 9 cm, o que, segundo Ana, tornou a cesárea mais complexa. Nesse estágio, a mãe relata que o procedimento exigiu a manobra de Zavanelli. Se trata de um procedimento obstétrico de emergência utilizado quando os ombros do bebê ficam presos após a saída da cabeça durante o parto vaginal. Ou seja, consiste em empurrar a cabeça do bebê de volta para dentro do canal de parto, em direção ao útero, para então realizar uma cesariana de emergência.
Essa manobra, segundo Ana, causou traumas na cabeça e no cérebro de Hugo, que nasceu, por volta de 18h30, com sofrimento fetal grave e falta de oxigenação. O bebê foi para à UTI neonatal, mas não resistiu e faleceu horas depois, às 2h25 do dia 2 de junho.
“Hugo já estava em sofrimento fetal, ele teve morte cerebral. E foi isso que aconteceu. E devido à manobra de Zavanelli, teve uns traumas na cabeça, no cérebro. Então ele teve falta de oxigenação.”
Ana Miranda
Mãe afirma que morte poderia ter sido evitada
Ana afirma que a morte do filho poderia ter sido evitada se houvesse monitoramento constante e se a cesárea de emergência tivesse sido realizada a tempo.
“Se eles estivessem me monitorando, analisando os batimentos cardíacos do Hugo, eles iriam ver que ele estava em sofrimento, que os batimentos estavam caindo, e talvez poderiam intervir na mesma hora. Talvez o Hugo estaria aqui”
Ana Miranda
Ela também destacou que, ao seguir para a sala de parto normal, alertou a equipe: “Você mesma, quando cheguei, me internou para cesárea de emergência. Agora me coloca em uma sala normal? Eu não quero parto normal.”
Laudo apontou necessidade de intervenção imediata
Segundo Ana, laudos médicos e pareceres de especialistas consultados posteriormente confirmam que, em caso de sofrimento fetal, a intervenção deve ser imediata. “O laudo mesmo mostra: quando o neném está em sofrimento fetal, é necessário intervir, fazer o parto de emergência”, afirmou.
Ela também mencionou que advogados com quem conversou após o ocorrido classificaram a situação como negligência médica. Em sua conta do instagram, Ana fez uma publicação com imagens do filho, lamentando a sua morte e acusando o hospital de descaso no parto.
Vídeo Instagram:
Reportagem entrou em contato com a Prefeitura da Serra
Sendo assim, diante dos relatos apresentados por Ana, no último domingo (27), a reportagem do Serra Noticiário entrou em contato com a Prefeitura da Serra, junto à Secretaria de Saúde e a direção do Hospital Materno Infantil para questionar se:
- A Prefeitura da Serra e o Hospital gostariam de se pronunciar sobre as acusações de negligência médica feita por essa mãe?
- Quais foram as condições de parto e causas que levaram à morte do bebê Hugo?
- Ana Miranda estava em condições de realizar um parto normal? Por quais motivos solicitação da gestante por parto cesárea não foi atendida?
No entanto, até o momento da publicação desta matéria, não obtivemos nenhuma resposta ou pronunciamento por parte da gestão municipal. O Serra Noticiário continua acompanhando o caso e permanece no aguardo de uma resposta da prefeitura.
